NOTA DO QUILOMBO DO IFCS SOBRE OS ATOS GOLPISTAS DE 8 DE JANEIRO NO BRASIL

Nós do Quilombo do IFCS (estudantes, técnicos e professores; corpos negros, indígenas, LGBTQIAP+ e brancos antirracistas), viemos a público rejeitar os atos golpistas contra os resultados eleitorais no Brasil. Para nós, os golpistas são a pior representação do colonialismo. São eles que discriminam negros, indígenas, mulheres independentes, LGBTQIAP+, pobres e justificam os ataques às nossas florestas e animais. Também criticam os movimentos sociais autônomos e de esquerda e fazem alusão positiva ao nazismo. Eles defendem a ditadura (exaltam torturadores) e representam a Estadolatria, o militarismo, o igrejismo, o capitalismo e o capacitismo. Utilizam o nome de Deus para pregar o ódio ao próximo. Para eles, a Terra é plana e a cloroquina mata o vírus da Covid-19. Por todos esses motivos, somos contra todos os seus atos e o que significam.

Não obstante, enquanto um quilombo, viemos também a público problematizar e nos diferenciar de análises que pregam a defesa incondicional das instituições brasileiras. Nós jamais esqueceremos como nossos antepassados foram escravizados, torturados, assassinados, estuprados, humilhados, diretamente pelo Estado ou com a anuência dele. Até pouco tempo atrás o Executivo, o Judiciário e o Legislativo eram todos escravistas. Nós sabemos que essas instituições sequer tratavam os corpos negros e indígenas como humanos, portanto, não passíveis de direitos. Ademais, garantiram a tomada das terras indígenas e impediram que negros tivessem as suas próprias e pudessem viver autonomamente. A destruição de todos os quilombos tinha exatamente esse objetivo.

Nós sabemos que o judiciário sentencia penas maiores para corpos negros pelos mesmos delitos cometidos em comparação com corpos brancos. São essas mesmas instituições que hoje autorizam as incursões policiais nas favelas, periferias e florestas ou fingem não saber que corpos negros e indígenas estão sendo torturados e assassinados nesses lugares. Nós sabemos o que é ser preterido em um emprego em função da nossa cor da pele e como é a luta para incluir uma lei de cotas de 20% quando mais de 50% da população é de negros.

A regra que vigora nesse país desde 1500 é que os negros e indígenas podem sobreviver desde que aceitem ficar como produtores de riquezas para seus patrões brancos e brancas. Esse princípio permanece até os dias atuais e isso justifica porque a maioria dos negros e indígenas estão em situação de trabalhadores do mercado informal sem quaisquer direitos, tendo dificuldades para sobreviver.

Com efeito, seria uma absoluta incoerência e uma demonstração de ignorância histórica e descompromisso com nossos antepassados se viéssemos a público defender o necro-racista-Estado brasileiro. Quem faz com orgulho a defesa dessas instituições é a elite branca e os trabalhadores colonizados.

Pelo exposto, é fundamental fazer a diferença entre golpe militar e revolução social. Golpistas defendem privilégios de classe, de raça, de sexo; revolucionários defendem direitos, liberdade, igualdade e lutam contra o racismo, o patriarcado e todas as formas de discriminações. Revolucionários, portanto, derrubam Estados e suas instituições em lutas por igualdade e liberdade para os oprimidos. Golpistas tentam tomar o Estado para ampliar ou garantir privilégios.

Quem faz a defesa incondicional das instituições estatais, invalida todo e qualquer processo revolucionário que venha estabelecer a verdadeira igualdade nesse país. O nosso problema, portanto, não é exatamente pelos ataques às representações do Estado brasileiro que escravizou nossos antepassados e que não priorizam nossas pautas, embora sejamos maioria da população. Mas nos opomos veementemente ao fato de os golpistas não terem nenhuma pauta social inclusiva, muito ao contrário, a pauta deles é autoritária, racista, patriarcal, cisheteronormativa. Eles não buscam nenhum direito, só querem privilégios autoritários. Somos veementemente contrários a destruição vil do patrimônio público e de obras artísticas de inestimável valor simbólico realizada pelo “gado” neocolonialista. Não nos espanta a solidariedade deles com as forças policiais.

Historicamente, os nossos quilombos lutaram arduamente contra a casa-grande e as forças do Estado que nos escravizaram. É por isso que nossa análise se diferencia das dos brancos acostumados e ter o Estado como seu defensor contra os nossos.

Não obstante, saudamos o governo Lula pela simbologia da sua posse, subindo a rampa com representantes do povo e com uma mulher negra, símbolo do acúmulo de opressões, colocando a faixa presidencial. Um acerto fundamental. Também foi certeiro ao escolher um ministério mais plural e representativo da sociedade brasileira, embora ainda majoritariamente masculino e branco. Para nós do Quilombo, é muito bom ver corpos negros e indígenas assumindo ministérios e cargos de direção. Todavia, a simbologia não basta e não pode se encerrar em si mesma. Precisamos ver as simbologias supracitadas sendo postas em práticas com políticas públicas efetivas. Para minimizar as possibilidades de os golpistas voltarem a ocupar a governança política, será necessário fazer um governo que atenda aos anseios populares, priorizando a educação, a saúde, a criação de moradias e demais políticas sociais. Preferimos não ser governados, como o foram os quilombos no passado, mas enquanto o povo não se organiza para exercer o autogoverno, olharemos para o governo Lula na esperança que cumpra um papel, pelo menos, de enfrentamento às discriminações com criação de direitos sem priorizar interesses de bancos, do agronegócio e de empresários, como o petismo fez em seus mandatos. Será necessário ampliar as políticas de reparação racial em vários dos seus sentidos, possibilitando a diminuição das desigualdades sociais. Um caminho importante será taxar as grandes fortunas e começar um processo amplo e contínuo de reforma agrária e de estímulo para gestão de empresas realizada pelos próprios trabalhadores. Será necessário estimular projetos de investimentos maciços em educação. É chegada a hora de propor um pacto nacional que crie um projeto de escolas públicas integrais, nos quais as crianças e os adolescentes possam tomar café, estudar pela manhã matérias do currículo, almocem, e na parte da tarde façam atividades lúdicas, esportivas etc e jantem antes de irem para casa. Será necessário investir nos salários dos professores e em disciplinas decoloniais para mudar a formação dos nossos alunos de modo que possa valorizar os saberes e as culturas negras e indígenas. É importantíssimo investir em novas universidades e garantir o ensino com bolsas para todos os alunos que necessitem. Se faz urgente uma mudança curricular nos cursos de ciências humanas. Temos que combater o eurocentrismo com toda força. Outrossim, é fundamental a revogação da reforma do ensino médio proposta pelo governo Bolsonaro, pois reforça o elitismo e o racismo nas escolas, beneficiando o mercado empresarial da área da educação. Para atingir tais objetivos, será necessário mudar as prioridades. Se assim fizer, terá o nosso apoio.

Sobre os atos golpistas, é necessário chegar aos financiadores e produtores de fake news que são difundidas desde o final de 2014/início de 2015. Desde então estamos sob o curso de um golpe contra as liberdades das maiorias oprimidas que culminou no dia 8 de janeiro com ataque aos resultados do processo eleitoral. Não adianta prender o “bucha de canhão” que invadiu as instituições da esplanada dos ministérios, é necessário chegar nos mandantes, os verdadeiros privilegiados e que usufruem desse clima de divisão social instalado no Brasil desde então e que efetivamente seria beneficiado caso o golpe tivesse êxito.

Por fim, não somos punitivistas como a elite branca dominante, pois sabemos que em qualquer momento a defesa do punitivismo se virará contra nós mesmos, tal como ocorre nesse país há mais de 500 anos. O punitivismo é um instituto branco e colonialista.

Como um quilombo, escrevemos aqui pensando nas dificuldades que nossos estudantes negros, indígenas e pobres hoje passam para conseguir estudar. Mas pensamos também nos nossos trabalhadores terceirizados que ganham (quando recebem em dia) salários aviltantes para limpar os banheiros. Pensamos nos moradores de favelas e periferias, em particular, nas 33 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar que agora estão com dificuldades para fazer três refeições. A quantidade de desempregados nesse momento no país gira em torno de 10 milhões de pessoas. O Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo com mais de 650 mil presos. Essas pessoas não têm voz na academia e nem tem tempo para fazer “notinha” contra os atos golpistas. Estão simplesmente correndo para sobreviver. Sabemos que a branquitude vai criticar essa nossa nota, pois é a grande beneficiária e garantida pelas instituições estatais. Ela não entende, por razoes óbvias, por que criticamos o Estado. Mas é assim que escrevemos uma nota antirracista. Somos quilombo não atoa.

Terminamos essa nossa carta com as palavras de uma mulher negra que sabia bem o seu lugar:

“Será que a nossa civilização hoje vale a pena salvar? (…) Ah, trabalhador! Oh, operário faminto, ultrajado e roubado, por quanto tempo você dará ouvidos aos autores de sua miséria? Quando você se cansará de sua escravidão e demostrará isso, entrando corajosamente na arena com aqueles que declaram que “não ser escravo é ousar e FAZER? Quando você se cansará de tal civilização e declarará com palavras, cuja amargura não será confundida, “estou fora da civilização que me degrada tanto; não vale a pena salvá-la?” (Lucy Parsons, 1908).

Viva Zumbi, Lélia, Abdias, Lucy Parsons, Kom’Boa, Sam Mbah, os Panteras Negras, Krenak, Kopenawa, bell hooks, Clóvis Moura, Carolina Maria de Jesus… presentes!!

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